Scientific Electronic Library Online

 
vol.3 no.2EditorialAn overview of post-traumatic stress disorder in children and adolescents  author indexsubject indexsearch form
 

Adolescencia Latinoamericana
Print ISSN 1414-7130

 


Adolesc. Latinoam. vol.3 no.2 Porto Alegre Nov. 2002

 
How to cite this article

Carta ao editor

Gravidez de adolescência : uma questão social

 

 

A gravidez na adolescência, fato amplamente discutido atualmente nos meios acadêmicos, mídia e órgãos governamentais, longe de representar um acontecimento novo, esteve sempre presente na história da humanidade. Nas civilizações antigas, tão logo aparecessem os primeiros sinais de puberdade, a jovem era considerada apta para o casamento. Presença comum no passado de cada um de nós é facilmente reconhecida em nossas memórias e nos álbuns de família, onde aparecem nossas mães, avós ou bisavós, ainda em tenra idade, cercadas de numerosa prole.

A capacidade reprodutiva, àquela época, estava associada ao frescor da juventude e quanto maior a prole, maior o "mérito da matrona". Nada questionava-se quanto a capacidade psicobiológica daquelas imaturas jovens em parir, cuidar e educar seus filhos.

A igreja católica, detentora de grande poder sobre as questões da sexualidade e reprodução, propagava o " crescei e multiplicai". Exercendo forte repressão sexual e radicalmente contrária ao uso de qualquer tipo de método contraceptivo, contribuía para os 12, 15 ou 20 filhos presentes na maioria das famílias. Somando-se aos fatores culturais e religiosos, haviam os interesses políticos e econômicos vigentes.

O Estado dependia do rápido crescimento da mão de obra para concretizar sua expansão e impulsionar as grandes transformações da época, o que tornou o crescimento populacional desejado e incentivado. A quem se destinariam então os serviços de pré-natal e planejamento familiar?

Neste contexto, as mulheres, longe de qualquer expressão social ou política viviam submissas ao marido e senhor e detentoras da "sagrada missão da maternidade" tinham como único legado: casar, procriar e zelar pelos filhos, cabendo ao homem, chefiar e prover adequadamente a família.

Na década de 60, com o movimento de contracultura, os jovens começaram a questionar as políticas sociais vigentes e além disto, reinvidicaram o direito ao livre exercício da sexualidade. Contrariando os rígidos padrões morais, a gravidez passou a ocorrer fora dos laços matrimoniais.

O crescimento populacional tornara-se preocupante e a então, explosão demográfica somada ao processo maciço de industrialização tornou o trabalho humano "dispensável". O excedente de mão de obra, o desemprego e o futuro dos jovens passaram a ser preocupações para o Estado.

Os acontecimentos sócio-político-econômicos e as transformações ocorridas no âmbito da moral e dos costumes levaram invariavelmente, o Estado e a sociedade, a um novo posicionamento em relação aos padrões sexuais adotados pelos jovens "modernos".

Neste momento, o controle da natalidade tornara-se uma alternativa para conter este processo e os métodos contraceptivos passaram a ser mais divulgados.

Nos idos de 60, surgiram as pílulas anticoncepcionais e criaram-se os primeiros serviços de pré-natal voltados às jovens gestantes. A implantação efetiva dos programas de planejamento familiar permitiu às mulheres e ao Estado, o controle sobre a prole.

Nos países em desenvolvimento, fazia-se necessário mais do que o planejamento familiar, o controle definitivo sobre o número de filhos. Realizou-se então, nas décadas de 80 e 90, a esterilização de grande número de mulheres jovens em idade fértil, tornando-a hoje, o segundo método contraceptivo mais utilizado pelas jovens brasileiras em união (8%), precedido apenas pelas pílulas anticoncepcionais (PNDS-96).

As progressivas transformações no âmbito da sexualidade dos jovens continuaram ocorrendo, e hoje, a iniciação sexual, ocorrendo cada vez mais precocemente, torna-os alvo de preocupações.

A sexualidade, presente em todas as etapas do desenvolvimento humano, aflora com toda sua força na adolescência sobre influência dos hormônios sexuais. Responsáveis pelo aparecimento dos caracteres sexuais secundários conduzem a um novo "olhar" para o sexo oposto, antes indiferente.

Donos de um corpo em crescente transformação e regidos por uma mente ávida de novas experiências, trilham pelos caminhos da curiosidade e do desejo, ainda incontrolável. Alguns com pouco ou nenhum conhecimento da fisiologia do corpo, agora reprodutivo, outros, carregados de conhecimentos científicos e das "sábias" orientações paternas, seguem indistintamente pelos mesmos caminhos. Apoiados no pensamento mágico "isso não acontecerá comigo" e levados pelo calor do momento lançam-se nas mais diversas experiências, entre elas a do sexo desprotegido.

Independente do meio social em que estejam inseridos e do conhecimento prévio dos métodos contraceptivos, expõem-se, frequentemente, ao risco da gestação não planejada.

No Brasil, 50% das jovens e 78% dos jovens tem a sua primeira experiência sexual até os 24 anos de idade, com idade mediana da sexarca de 16,4 anos para as garotas e 15,3 anos para os rapazes (1996). Apenas 33% dos jovens relatam uso de contracepção na primeira relação sexual e em 1998, 25% dos partos realizados no Sistema Único da Saúde (SUS), foram de adolescentes.

Considerando que aproximadamente 40% das adolescentes engravidam até 3 anos da primeira gestação a questão torna-se ainda mais preocupante..

No mundo moderno, escolaridade e capacitação profissional são fundamentais para inserção do jovem no mercado de trabalho, hoje tão escasso e competitivo. O mesmo ocorrendo para as jovens que já não veêm no casamento e na maternidade ideais de vida.

A ocorrência e a reincidência da gestação não programada, em pleno processo de capacitação e formação profissional conduzirá invariavelmente os jovens, por necessidade de prover a nova família, à deserção escolar e sub-emprego, mantendo assim o ciclo da pobreza.

Num país pobre, eminentemente jovem como o Brasil ( 21% da população formada por adolescentes), a gestação na adolescência representa um grande desafio.

Dos problemas envolvidos com a gravidez precoce, o biológico, parece-nos o menor e mais contornável. Uma assistência pré-natal especializada, precoce e preferencialmente multidisciplinar é capaz de minimizar o impacto biopsíquico da gestação para estas jovens. O principal impacto, porém, ainda é o social.

 

Ivana Fernandes Souza
Ginecologista e Obstetra - Hebiatra
Belo Horizonte Minas Gerais
Membro da Diretoria de Publicações da ASBRA. 2000-2001
Membro da Diretoria da Associação Mineira de Adolescência - AMA - 2000-2001

 

Bibliografia

1. Simon C St, Kelly L, Singer D . Why pregnancy adolescents say they did not use contraceptives prior to conception. Journal of Adolescent Health,1996 19(1):48-53.

2. Coates V, Correa M.M. Implicações sociais do papel do pai. In: Maakaroun MF, Souza RP, Cruz AR. Tratado de Adolescência - Um Estudo Multidisciplinar. Rio de Janeiro: Editora de Cultura Médica,1991: 407-13.

3. Costa CFF. Gravidez na adolescência. In: Magalhães FSC e Andrade HSSM. GinecologiaInfanto Juvenil, Rio de Janeiro: Editora Medsi, 1998: 501-05.

4. Galvão L , Díaz J. Saúde Sexual e Reprodutiva no Brasil. Editora Hucitec – Population Concil, 1999, 389p.

5. Grossman E. Adolescência através dos tempos. Adolesc Latinoam 1998; 1(2): 68-73.

6. Jovens Acontecendo na Trilha das Políticas Públicas (2 vols) CNPD, Brasília, 1998.

7. Krauskopf D. Thames, P.L.A. Embarazo en la adolescência e Aspectos antropológicosdel embarazo de adolescentes. Comision Nacional de Atencion Integral al AdolescenteOrganizacion Panamericana de la Salud / OPS. Costa Rica,1996.

8. Maia Filho NL, NederVM, Maioral VFS, Pereira RT, Mathias L. Gravidez na adolescência três décadas de um problema social crescente. Revista GO Atual,1998 (7): 28 a 32.

9. Monteiro DLM. Cunha A A, Bastos A C. Gravidez na Adolescência. São Paulo, Revinter, 1998, 190p.

10. Schor N, Mota MSFT, Branco VC (orgs.) Cadernos Juventude Saúde e Desenvolvimento. Ministério da Saúde - Secretaria de Políticas de Saúde, Brasília, 1999.

11. Vieira EM, Fernandes MEL, Bailey P, Mackay A .Seminário Gravidez na Adolescência. Brasília, 1998.

 

© 2014  ASBRA/SASIA/CENESPA

Rua Aurélio Bitencourt, 45 - conj. 401 - Bairro Rio Branco
90430-080 Porto Alegre RS - Brasil
Tel: (55 51) 3332-6454
Fax.: (55 51) 3333-3245




ronaldps@plug-in.com.br